Espectroscopia de Prótons do Encéfalo

I. Introdução

Necessidade de se obterem informações que vão além das imagens puramente anatômicas; e que ofereçam dados a respeito da bioquímica e da fisiologia tecidual.
Apresenta-se como método não-invasivo, relativamente rápido e de fácil aplicação.
Oferece informação metabólica/bioquímica sobre o parênquima encefálico normal e sobre os vários processos patológicos, sendo capaz de identificar patologias invisíveis ‘a RM.
Em muitos casos, as alterações metabólicas precedem as anomalias estruturais.
Não é absoluta; a ERM não substitui a RMC, e sim a complementa (dados clínicos e exames convencionais são importantes!!).
Abordagem multi-funcional – difusão (DWI), perfusão (PWI) e espectroscopia por RM (ERM), aumenta a capacidade diagnóstica da RMC (convencional).
Pode oferecer melhor caracterização tecidual que a RMC; é capaz de aumentar a especificidade diagnóstica, e principalmente: informar o prognóstico, acompanhar a evolução e avaliar a resposta terapêutica.
RMC e ERM usam os mesmos princípios físicos; diferem na forma com que os dados são processados e avaliados. Obtêm-se gráficos de amplitude X freqüência (ppm); a ERM identifica e separa os metabólitos cerebrais (estes aparecem no espectro porque possuem prótons de hidrogênio(H); estão a uma concentração > ou = 0,5 mmol/l; e ressonam em diferentes freqüências ao longo do eixo horizontal de freqüência – “chemical shift axis”).

II. Técnica

Métodos de Localização

São basicamente dois:

  • STEAM - “ Stimulated echo aquisition mode” - 3 pulsos de 90 graus; tempo de eco (TE) alto ou baixo; não há recuperação completa do sinal; é mais contaminado pela gordura.
  • PRESS - “ point resolved spectroscopy” – 1 pulso de 90 graus e dois de 180 graus, e produz “spin-echo”; pode ser feito com TE alto ou baixo; há recuperação completa do sinal; oferece o dobro da relação sinal/ruído em relação ao STEAM.

Tempo de Eco

A informação espectroscópica depende do tempo de relaxamento (TR) e do TE utilizados, já que os metabólitos possuem diferentes tempos de relaxamento T2.
Os metabólitos identificados com TE longo (135 ms) são:

  • N-acetil aspartato (Naa)
  • Creatina (Cr)
  • Colina (Co)
  • Lactato (Lact) (quando +)

Os metabólitos identificados com TE curto (30 ms) são:

  • Lipídeos (lip)
  • Glutamina e glutamato (Glx)
  • Mio-inositol (Mi)
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De modo geral usamos:
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PRESS com TE longo para avaliação de lesões neoplásicas; o TE de 135 ms (ou 144 ms) é o ideal para evidenciar o pico de Colina.
- PRESS com TE curto (30 ou 35 ms) para as demais situações.
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Importante: lactato e lipídeos ressonam quase que na mesma freqüência, portanto para se conseguir individualizar o pico de lactato:
- visualização de um pico que, classicamente, apresenta o aspecto de um pico duplo ou “doublet” (com separação de 7 hertz entre os picos);
- utilizando TE = 135 ms é possível inverter o pico de lactato (fica abaixo da linha de base).
- utilizando TE bem alto (270 ou 288 ms) os lipídeos são suprimidos.

Voxel

A ERM pode ser realizada com um único voxel (“single voxel”) ou com vários voxels, posicionados simultaneamente (“multivoxel”).

“SINGLE VOXEL”: um voxel medindo cerca de 2 x 2 x 2 cm (8 cm3) é utilizado; é a técnica mais disponível e a mais usada (o exame é de fácil obtenção e avaliação); o “shimming” é mais fácil e a supressão da água e da gordura é mais eficaz.
Limitação: cobertura anatômica restrita (avaliação de uma única área durante o exame); portanto, o posicionamenteo adequado do voxel é crítico, e não se obtém referência interna para comparação.

“MULTIVOXEL”: também chamada “chemical shift imaging” (CSI); permite o estudo dos vários componentes da lesão num único tempo de exame, mostrando a extensão da anomalia metabólica. Pode ser 2D ou 3D; é de processamento mais complexo; oferece um mapa metabólico (imagem espectroscópica).
Limitação: áreas em que o “shimming” de grandes volumes é difícil (pela presença de vasos, LCR e osso, como na fossa posterior, por exemplo).

III. Espectroscopia de Boa Qualidade

1. Posicionamento do voxel: deve-se evitar sangue, ar, líquor, gordura, áreas de necrose, metal, calcificação e osso (campo não-homogêneo que dificulta a obtenção de uma curva de boa qualidade).

2. Referência: deve-se obter uma curva no parênquima de aparência normal contra-lateral, para ter uma referência interna, quando na avaliação de lesões focais; pode-se ainda, comparar com os valores normais da literatura, desde que a técnia seja idêntica.

3. Falso-negativo: quando uma lesão é muito pequena, pode apresentar padrão espectral totalmente normal (pelo efeito de volume parcial causado pelo parênquima normal adjacente); neste caso, pode-se reduzir o tamanho do voxel (ERM SV), o que deve ser compensado pelo aumento no número de aquisições.

4. “Re-scaling”: quando um único metabólito domina o espectro, exibindo-se em concentração muito alta (os outros metabólitos aparecem como picos bem menores).
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IV. Obtenção de Dados

O uso de Gd EV não interfere com o espectro.

Etapas

  • Pelo menos uma seqüência para localização é necessária (qualquer uma das seqüências convencionais do encéfalo; geralmente usamos um T2 “single shot”).
  • Posicionar o voxel na área desejada.
  • “Shimming” (calibração para equalizar os metabólitos).

Obtenção de um espectro de boa qualidade

  • “Shimming” adequado para homogeneizar o campo magnético.
  • Supressão da largura do pico de água (CHESS é a técnica utilizada para tal); sua supressão é fundamental para que se possa estudar os metabólitos cerebrais.
  • Supressão de gordura é importante para evitar a contaminação da curva por lipídeos.

V. Quando Valorizar a Curva

Uma curva de boa qualidade é aquela que apresenta uma linha da base aproximadamente horizontal, e que possui picos resolvíveis e estreitos; pode ser obtida mesmo quando o pc não permanece totalmente estático, durante a aquisição das imagens convencionais.

Alternativas para um espectro de má qualidade:

  • Aumentar o número de aquisições (prejuízo: aumenta o tempo de exame).
  • Reposicionar o voxel.
  • Aumentar o tamanho do voxel para aumentar a relação S/R.

VI. Os Principais Metabólitos e Seu Significado (uso de tabelas)

Análise da Curva

A quantificação absoluta dos metabólitos encefálicos é bastante complexa. Na prática, avaliam-se as relações metabólicas usando como referência a creatina (Cr), considerada o metabólito mais estável. Importante: a concentração de um determinado metabólito e, portanto, a relação metabólito/Cr pode variar de acordo com a área estudada e com a idade do paciente.

Variação regional

  • Naa - normalmente há menos Naa no hipocampo (arquicórtex) do que na interface
    córtiço-subcortical (neocórtex); a concentração de Naa no cerebelo também é
    menor do que no cérebro.
  • Co e Cr - mais Co e Cr são encontradas no tálamo e no cerebelo do que na substância
    branca cerebral.
  • Cr - sua concentração é geralmente um pouco maior na cortical X medular (20%).
  • Co - sua concentração é geralmente um pouco maior na medular X cortical; é
    geralmente maior na ponte do que no cérebro, podendo chegar a 2,0; o aumento
    da relação Co/Cr é normalmente observado nas zonas terminais de mielinização.
  • Núcleos da base - as relações Naa/Cr e Mi/Cr são menores nos núcleos da base que
    na córtex occipital, e a relação Co/Cr é maior, comparativamente nos mesmos níveis.

Variação com a idade

  • Neonato - Há aumento da Co e do Mi até os 8 meses de idade (mielinização ativa), tendendo a normalizar entre 8 meses e 2 anos. Níveis mais altos de Co e Mi do que o Naa podem ser observados na criança prematura e no RN a termo.
    Aumento gradual do Naa e da relação Naa/Cr ocorre após o nascimento.
    Após 2 anos de idade o padrão espectral da criança será igual ao a do adulto.
 
  • Idoso - É comum se observar: redução do Naa e Naa/Cr; aumento da Co e Co/Cr, e Mi mantido ou reduzido. Estas alterações sugerem redução no número e da viabilidade neuronal (redução do Naa), associada ‘a degradação mais acelerada das membranas e/ou aumento das células gliais (aumento da Co; Co/Cr).
    Aumento da Cr também é descrito.

A dieta não afeta significativamente as relações metabólicas, a não ser nos pacientes em restrição calórica severa ou em distúrbios hidro-eletrolíticos (hipoNa/hipo-osmolaridade).



Dra. Mirian Jane Gabriel Silva
Médica da Radiologia Clinica de Campinas