Caso
Raro: Ruptura de Vaso Intercostal em Paciente Portadora de
Neurofibromatose Tipo I.
H.C. Paciente do sexo feminino,
48 a., referindo dor torácica de forte intensidade há
2 dias.
Discussão / Revisão Literatura:
A neurofibromatose
corresponde a um grupo heterogêneo de anomalias autossômicas
dominantes, possuindo cerca de seis subtipos, sendo os mais importantes
na prática clínica o suptipo I, ou doença
de Von Recklinghausen e o subtipo II ou schwanoma acústico
bilateral.A doença de Von Recklinghausen (NF I) foi d escrita
inicialmente em 1882 pelo autor que leva o seu nome.
Ela corresponde a uma facomatose, possuindo tanto acometimento
cutâneo quanto neurológico e representando cerca
de 90% dos casos de neurofibromatose, com incidência estimada
entre 1:3000 e 1:5000 indivíduos. A patologia demonstra
expressividade variável (cerca de 80%) com alguns pacientes
apresentando apenas manchas cutâneas, enquanto outros desenvolvem
além destas, uma gama enorme de distúrbios em vários
outros sistemas, notadamente o nervoso e ósseo.
O lócus genético se encontra no braço longo
do cromossomo 17 que contém genes supressores tumorais,
inativos nos portadores desta enfermidade, explicando a predisposição
para o surgimento de neoplasias.
O critério clínico para o diagnóstico de
NF I baseia-se na presença de dois ou mais dos achados
abaixo:
a)
Seis ou mais manchas café com leite, tipicamente
lisas ou uniformemente pigmentadas, maior que 5mm antes da puberdade
e 15mm na fase adulta, presentes em 95% dos afetados. Resultam
de aumento da produção de pigmentos pelos melanócitos
da pele.
b) Dois ou mais neurofibromas de qualquer tipo,
ou um neurofibroma plexiforme, como resultante do crescimento
de tecido fibroso que circunda pequenos nervos.
c) Efêlides axilares ou inguinais.
d) Gliomas ópticos.
e) Dois ou mais nódulos de Lisch, esferas
acastanhadas na íris (hamartomas), importantes para o diagnóstico
e presente em cerca de 90% dos indivíduos na faixa adulta.
Não determinam redução da acuidade visual.
f) Lesão óssea característica
( displasia do esfenóide, afilamento do córtexde
ossos longos, com ou sem pseudoartrose).
g) Parente de primeiro grau com neurofibromatose
tipo I.
Os neurofibromas
plexiformes são marcas registradas da NFI, sendo encontrados
em torno de um terço dos casos, aparecendo durante ou logo
após a puberdade, presentes em 15% dos doentes na faixa
pediátrica e até em 90%na faixa adulta. Durante
a gestação, 50% das afetadas podem apresentar crescimento
das lesões.
Os neurofibromas plexiformes são lesões congênitas,
localmente agressivas, apresentando-se nos primeiros anos de vida
como pequenas massas de textura amolecida, com pigmentação
aumentada, e que progridem de volume com o passar dos anos, podendo
acarretar em problemas estéticos.
Histologicamente são constituídos por células
de Schwann, neurônios e colágeno, numa matriz intracelular
desorganizada. Macroscopicamente apresentam-se como massas no
trajeto axial dos nervos, com tendência a se infiltrar e
separar os fascículos normais destes em uma aparência
fusiforme, podendo ocorrer degeneração sarcomatosa
em torno de 5 a 15% dos casos.
Nos métodos de imagem, durante o exame de tomografia apresentam
baixa atenuação na fase sem contraste e realce após
a utilização do meio de contraste iodado e na ressonância
magnética, em seqüências ponderadas em T1, demonstram
baixo sinal, hipersinal em T2 e impregnação variável
após o uso do meio de contraste paramagnético.
As complicações vasculares são encontradas
em aproximadamente 3,6 % dos casos, sendo a maioria como estenoses
ou aneurismas e os vasos do sistema renal o local mais freqüente.
No tórax as artérias envolvidas encontram-se no
mediastino, arcos costais ou diafragma, sendo as causas principais
por sangramento devido ao tumor vascularizado de origem mesenquimal
ou ruptura de vasos enfraquecidos de médio-grande calibre.
Os vasos comumente envolvidos são a artéria subclávia,
as intercostais e/ou mesmo a aorta diretamente. Inicialmente o
sangramento situa-se no espaço extrapleural, com posterior
ruptura da pleura, seguindo-se um hemotórax maciço.
A nível histológico existem várias formas
de envolvimento destes vasos, primariamente divididos pelo diâmetro
do vaso. Os vasos maiores de 1 mm diâmetro (aorta, carótidas,
renais) geralmente são circundados por tecido de neurofibromas
e mostram hipertrofia, fragmentação das lâminas
média e elástica, além de uma reação
adventícia fibrosa levando a estenoses ou formação
de aneurismas. Aqueles menores de 1 mm, não estão
associados a uma malformação neural e sim a displasias
vasculares divididas em 5 tipos:
intimal pura (mais freqüente), forma intimal aneurismática,
periarteriolar nodular, epitelióide e finalmente forma
intimal avançada.
Foram descritos até dezembro de 2002, cerca de 22 relatos
de casos na literatura mundial sobre hemotórax maciço
em pacientes portadores de NFI, sendo este um deles.
Referências
Bibliográficas:
1 - Halpern M, Currarino G: Vascular Lesions causing hypertesion
in neurofibromatose. N Engl J Med 273: 249,1965.
2 - Dominguez J,Sancho C: Percutaneous treatment of a ruptured
intrecostal aneurysm presenting as massive hemotorax in a patient
with type I neurofibromatosis. J Thorac Cardiovasc Surg 124: 1230-2,2002.
3 - MiuraH, Taira O, Uchida O, Usuda J.Spontaneos haemotorax associated
with von Recklinghausen´s disease: review of occurence in
Japan. Thorax 1997; 52:577-8.
4 - Brady DB, Bolan JC. Neurofibromatatosis and spontaneous hemothorax
in pregnancy: two case report. Obstet Gynecol. 1984; 63: 35-8.
5 - Magara T, Onoe M, Yamamoto Y. Massive mediastinal bleeding
due to spontaneous rupture of the vertebral artery in von Recklinghausen´s
disease.Jpn thorax Cardiovasc Surg. 1998; 46:906-9.
6 - Ilgit ET, Vural M, Oguz A. Peripheral arterial involvement
in neurofibromatosis type I: a case report. Angiology. 1999; 50:
955-8.
7 - From the Archives of the AFIP. Imaging of Neurogenic Tumors:
radiogic-Pathologic Correlacion.
8 - Greene JF, Fitzwater JE, Burgess J. Arterial Lesions associated
with neurofibromatosis.
Dr.
Eduardo Skaf Kalaf
Radiologista da Radiologia Clínica de Campinas - RCC