O
Papel do Ultra-Som nas Lesões do Manguito Rotador
O ombro doloroso é a segunda maior queixa
relacionada ao músculo esquelético. Cerca de 60%
das alterações do ombro estão ligadas às
lesões do manguito rotador (um conjunto de músculos
composto pelos rotadores externos: m. supra-espinhoso, m. infra-espinhoso
e m. redondo menor, e pelos rotadores internos do úmero:
m. subescapular) e podem ser decorrentes de degeneração
intrínseca dos tendões, traumatismo, tendinose,
artrite inflamatória, tendinose por sobrecarga de tração
e síndrome do impacto.
Fatores
intrínsecos
Os tendões são tecidos de metabolismo lento, com
vascularização particular; os vasos sanguíneos
penetram pelo tecido que envolve o tendão e nutrem sua
camada mais externa; por um processo de difusão os nutrientes
atingem a camada mais central.
Há uma zona de menor vascularização do tendão
do músculo supra-espinhal, localizando-se na sua porção
anterior, próximo à cabeça longa do bíceps,
sendo denominada zona crítica, que se estende por 1,0 cm
a partir da inserção tendínea (no tubérculo
maior).
A hipoperfusão relacionada à idade ou a doenças,
associada a microtraumas, tem reparação deficiente
na zona crítica, provocando degeneração e
fraqueza tendínea.
Outra causa de degeneração intrínseca é
o uso excessivo dos tendões, principalmente em atletas;
dependendo da magnitude, da freqüência e do nível
da sobrecarga mecânica do exercício, podem evoluir
para ruptura.
Fatores
extrínsecos
Podem ser divididos em primários e secundários.
Os primários podem estar relacionados a anormalidades anatômicas
de desenvolvimento ou adquiridas das estruturas ósseas
e ligamentares do arco coracoacromial, como calcificações
do ligamento coracoacromial, alterações hipertróficas
da articulação acromioclavicular, hipertrofia do
músculo supra-espinhal, favorecendo a síndrome do
impacto (conjunto de sinais de sintomas caracterizado por dor
e incapacidade progressiva provenientes do atrito mecânico
dos elementos do arco coracoacromial com as estruturas de partes
moles subacromiais).
Os fatores secundários geralmente estão envolvidos
nas lesões de atletas que executam movimentos repetidos
acima da cabeça ou de arremesso. Microtraumatismos repetidos
seriam responsáveis pelo aparecimento de instabilidade
da articulação glenoumeral ou escapulotorácica,
ocasionando elevação da cabeça umeral em
relação à glenóide, com conseqüente
redução do espaço subacromial. Nesse caso
não há alteração do arco coracoacromial.
Em relação à síndrome do impacto,
ela pode ser definida como um conjunto de sinais e sintomas caracterizados
por dor e incapacidade progressivas provenientes do atrito mecânico
dos elementos do arco coracoacromial com estruturas de partes
moles subacromiais. Esse processo de compressão crônica
desencadeia alterações progressivas da bolsa subacromial-subdeltóidea
e do manguito rotador, descritas e classificadas em três
estágios:
Estágio
I - edema e hemorragia do manguito rotador em indivíduos
com idade inferior a 25 anos, freqüentemente reversíveis
com tratamento conservador.
Estágio
II - fibrose da bolsa subacromial e inflamação
do tendão do supra-espinhal, encontradas em indivíduos
entre 25 e 40 anos de idade, tratados com bursectomia ou liberação
do ligamento coracoacromial.
Estágio
III - ruptura do manguito rotador ou tendão do
cabo longo do bíceps, osteófitos ou outras alterações
do acrômio anterior e tubérculo maior, observados
em indivíduos com idade superior a 40 anos.
Achados
ultra-sonográficos
Há
redução da ecogenicidade do tendão, com áreas
de limites maldefinidos com o maior diâmetro acompanhando
a orientação das fibras tendíneas, sendo
identificada mais facilmente no plano longitudinal em exame ultra-sonográfico.
Calcificações distróficas podem surgir nesse
processo de degeneração/inflamação
tendínea, com aspecto ultra-sonográfico de focos
hiperecogênicos com ou sem sombra acústica posterior.
Podem ser
parciais ou completas/transfixantes.
As rupturas
parciais podem ser superficiais (junto à bolsa sinovial),
intratendíneas e profundas (adjacentes à superfície
articular). As intratendíneas correspondem a mais de
50% de todas as rupturas e estão localizadas, em grande
parte, na zona crítica.
As rupturas completas/transfixantes ou de toda a espessura do
tendão permitem a comunicação da cavidade
articular com a bolsa subacromial-subdeltóidea, correspondendo
a 10% de todas as lesões do manguito rotador.
Achados
ultra-sonográficos da rupturas (sinais diretos)
Rupturas parciais podem apresentar dois padrões:
Conduta
De modo geral,
quando o manguito rotador estiver intacto (processos inflamatórios
ou rupturas parciais), a conduta será conservadora com
o uso de antiinflamatórios e a realização
de fisioterapia, com o objetivo de reduzir o impacto do arco coracoacromial
e fortalecer o manguito rotador e a musculatura de suporte da
escápula.
Para rupturas transfixantes pequenas com sintomas persistentes,
associa-se, à descompressão artroscópica,
a reinserção do tendão roto. A cirurgia a
céu aberto está indicada para rupturas grandes.
Nas rupturas maciças, enxerto ou transferência de
tendão pode ser requerido.
Dra.
Fernanda Piedade Bacchi
Médica da Radiologia Clínica de Campinas