Abortamento:
Diagnóstico Clínico e Ecográfico
Introdução:
Sangramento vaginal é relatado por cerca de 25% das pacientes
durante as primeiras semanas de gestação, sendo
geralmente autolimitado e relacionado à implantação
do embrião no endométrio decidualizado.
De acordo com a OMS, abortamento é a expulsão ou
extração do concepto pesando menos do que 500 gr
ou com 22 semanas completas.
A ultra-sonografia é usada seletivamente para se determinar
se estão presentes produtos da concepção
retidos, a fim de que a conduta correta seja tomada. Ela também
tem papel na diferenciação das diferentes formas
clínicas de abortamento e permite o diagnóstico
diferencial com outras formas de sangramento ou patologias como
gestação ectópica, neoplasia trofoblástica
gestacional, hemorragia uterina disfuncional, câncer do
colo do útero e pólipos endometriais.
Ameaça
de abortamento: Expresso clinicamente através
de sangramento vaginal de pequena intensidade, com ou sem cólicas.
O colo uterino encontra-se fechado e longo.
Esse termo só é aplicável quando a paciente
é considerada clinicamente como tendo um embrião
potencialmente vivo.
O diagnóstico é ultra-sonográfico.
Aborto
evitável: É considerado sempre quando o
embrião está vivo e o saco gestacional localizado
na topografia normal, dentro da cavidade uterina, na presença
de sangramento expressivo. Na prática clínica 50%
dessas gestações com sangramento evoluem para o
abortamento e 50% apresentam evolução normal.
Os achados ecográficos de mau prognóstico são
crescimento anormal do saco gestacional ou inatividade reativa
do embrião ou feto.
Aborto
inevitável: Seu diagnóstico é feito
através da visibilização do orifício
interno cervical dilatado.Os achados à ultra-sonografia
incluem presença de saco gestacional no segmento uterino
inferior ou no canal vaginal. Ecos internos no saco gestacional
são indicativos de presença de conteúdo hemorrágico.
Aborto
incompleto: É decorrente da eliminação
parcial do feto ou placenta.
Diagnóstico ultra-sonográfico: Presença de
conteúdo amorfo, heterogêneo no interior da cavidade
uterina, com ou sem líquido associado. Quando a gestação
é avançada podem ser evidenciadas estruturas fetais.
Óbito
embrionário: O diagnóstico é ultra-sonográfico,
com evidências claras da presença de embrião
não vivo (ausência do batimento cardíaco embrionário).
Aborto
completo: O embrião ou feto são eliminados
em conjunto com a placenta, não restando componentes ovulares
no interior da cavidade uterina.
Diagnóstico ultra-sonográfico: Útero apresentando
reação decidual representada por uma linha central.
Não devem ser visibilizados produtos da concepção
retidos.
Aborto
infectado: Geralmente está associado à
interrupção provocada da gestação
e menos freqüentemente ao aborto incompleto.
Diagnóstico ultra-sonográfico: Pode ser identificado
ar no interior da cavidade uterina, associado ou não a
restos ovulares retidos. A propagação extra-uterina
da infecção pode ser evidenciada pela existência
de coleções abscedadas na pelve ou até mesmo
em segmentos mais altos do abdome. Líquido livre em fundo
de saco posterior é freqüente.
Aborto
habitual: Esse termo é aplicado quando ocorrem
no mínimo três gestações interrompidas
sucessivas. A incompetência istmo-cervical é causa
freqüente e é caracterizada por abertura precoce do
orifício interno cervical, com conseqüente prolato
das membranas para o interior do canal endocervical, que se apresenta
com aspecto afunilado.
Hematomas
uterinos: Ocorrem devido ao descolamento da placenta
ou ruptura do seio marginal. Aparecem tipicamente no primeiro
trimestre e podem ser subcoriônicos ou retroplacentários.
Subcoriônicos: Presença de área hipoecogênica
entre as membranas e a parede uterina.
Retroplacentários: Presença de área hipoecogênica
entre a placenta e o miométrio.
Os hematomas com volume maior que 50 ml estão associados
a aborto subseqüente ou a trabalho de parto prematuro, já
os hematomas com volume menor que 35 ml geralmente estão
associados à gestação de bom prognóstico.
Sua evolução deve ser acompanhada com exames ultra-sonográficos
seriados.
Papel
do Doppler: O exame Doppler das artérias espiraladas
pode ser útil para distinguir um útero gravídico
de outro não gravídico em pacientes com beta-HCG
positivo, mas com cavidade uterina vazia. O fluxo peritrofoblástico
típico nas artérias espiraladas mostra velocidade
de pico sistólico maior que 8 cm/s, com elevado componente
diastólico. Critérios mais rígidos como velocidade
de pico sistólico maior que 15 cm/s e IR maior que 0,55
nas artérias espiraladas permite predição
diagnóstica de gestação viável intra-uterina.
Conclusão:
Os achados ultra-sonográficos são essenciais para
o diagnóstico diferencial de abortamento, podendo ser úteis
para orientar a conduta adequada para cada caso, sendo importante
lembrar que o conhecimento do beta-HCG quantitativo é importante
para a interpretação correta das imagens ultra-sonográficas.
Dra. Fernanda Piedade Bacchi
Médica da Radiologia Clinica de Campinas